É preto no branco.

Quarta-feira, uma Kombi.
Assim começou uma paixão arrebatadora, que dura exatos 30 anos.

Com data e hora marcadas, como se fosse algo que sempre esteve lá, adormecida, esperando para ser descoberta.

Eu tinha quase quatro anos, e meu pai resolveu que estava na hora de me levar ao estádio.

Uma grande euforia tomou conta de mim, que já me dizia Corinthiano, usava a camisa (sempre a preta) com o numeral 3 costurado às costas.
Aquele escudo bordado significava pouco pra uma criança, talvez as horas passadas com a mãe indo ao Sport Spada querendo ganhar qualquer presente fora de época.

Tudo isso mudaria naquela noite.

Meu pai, eu e um amigo dele rumamos ao estádio em sua Kombi da floricultura, cheia de caixotes e sem bancos atrás.
Subi num dos caixotes e fui deitado alí, ignorando a segurança que também desconhecia na época.

No caminho, atento à tudo, via pessoas ricas e pobres caminhando na mesma direção, bandeiras tremulando pelas janelas dos carros e dos ônibus por toda a cidade.

Já bem próximo ao estádio, os gritos, a cantoria, a torcida reunida esperando a hora do jogo começar.
A fila, o cheiro de estádio, o empurra-empurra, a imponência da construção, tudo passava (ou quase) batido por mim, criança que era.

Lá dentro, as coisas começaram a mudar.

Um enorme retângulo verde, brilhando, a torcida lotando a casa com suas bandeiras agitadas frenéticamente enquanto acompanhavam os gritos de guerra.

Eis que entra em campo o adversário, do sul do país, que seria campeão do mundo naquele ano e tal.
Vaias e palavrões ecoam pelo concreto e atravessam o peito dos inimigos como espadas de aço durante a batalha.

Após a balbúrdia, o silêncio.

Surgem os heróis.
Vestindo camisas brancas e calções negros como o céu daquela noite fria em que uma criança já havia perdido e muito a hora de dormir.

O Corinthians.

A criança deixava de ser inocente para fazer parte daquela horda enlouquecida que não parava de cantar por um só minuto.
Aprendi palavras feias e atitudes bonitas naquela noite, compreendi que a felicidade de um pai ao ver seu filho feliz é imensurável, além das coisas mais sublimes que existem.

Dentre aqueles heróis que vi, Sócrates, Biro-Biro, Zenon, Casagrande, Leão e Wladimir foram os primeiros a marcar minha imaginação e fazê-la fervilhar com sentimentos até então novos.

Aprendi a diferenciar amor de paixão.

Amor é o que se tem pela família, pai e mãe, filhos, etc.

Paixão, é outra coisa.
É aquilo que motiva seu dia, te faz perder a cabeça, causa tristeza e alegria em questão de minutos, faz você aprender rapidamente o que fazer pra não levar outra pancada, e, ainda assim, permanecer fiel a isso.

O Sport Club Corinthians Paulista completa cem anos de história, e minha família, desde meu avô, meu pai, eu e meu filho compartilhamos dessa paixão que soma 90 anos entre todos nós.

Meu filho hoje tem quatro anos, acho que está na hora de passar adiante a tradição.
A camisa e o discurso ele já tem, falta apenas acender definitivamente a chama.

Em tempo: Perdemos aquele jogo, mas jamais derramei sequer uma lágrima, nem mesmo reclamei com meu pai ou cogitei mudar de time.

Uma das lições é de que a gente nasce, vive e morre Corinthiano, e cada dia é um jogo diferente, com vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, mas que servem pra formar nosso caráter e definir nossa personalidade.

Muitos vão ter que nascer de novo pra entender.

Vai, Corinthians!

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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2 respostas para É preto no branco.

  1. Dias Rafael disse:

    Ah porra, baita texto Rodrigo.

    Dinheiro nenhum paga as tuas primeiras impressões do campo, da torcida, ver ao vivo os caras dos gols do fantástico e das páginas da Placar correndo atrás de um gol, mas, todo o dinheiro do mundo detona o esporte, atualmente.

    O teu Coringão e o meu Grêmio despertarão muitas paixões ainda, foda será que cada vez menos Biro-biros e Portaluppies surgirão, assumindo a identidade de uma camisa para todo o sempre, mesmo que troquem de “empresa” e de cores.

    Parabéns pro teu (eca) time, e também pelo texto.

  2. Ricardo Onil disse:

    PQP, q texto, me desculpa fui as lagrimas, Parabens!!!!

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