Os sapatos de um homem morto.

Família vende tudo, é o que diz a placa.

Talvez a idade tenha chegado, o peso inexorável do tempo se abatido sobre o patriarca daquela casa.
Um homem do mar, um engenheiro, um advogado, talvez. São indícios representados nas paredes, em quadros de batalhas, troféus de esportes e porta-retratos vazios.

Por onde andam aqueles que enchiam de sorrisos esta sala agora escura e sem vida? Os retratos e rostos sumiram, bem como o barulho e a agitação do salão de jogos. Copos que um dia receberam a mais fina das vodkas, hoje recebem poeira e uma etiqueta. Um preço simbólico, um pouco alto demais para um item usado, mas que revela algo ainda mais intrigante.

Como definir o preço de algo que um dia teve valor?

Valor e preço são coisas diferentes, distantes. Paralelas perfeitas, que jamais se cruzarão, nem mesmo sob a descomunal força do dinheiro.

Um armário aberto, cheio de roupas de mulher, vestidos longos, casacos de pele de aquecer qualquer alma durante o inverno cortante da Europa. Finesse, diriam. Ostentação, diriam outros.

Brinquedos não tão velhos, a maioria quebrados e imprestáveis, talvez uma criança ativa demais para a fragilidade do plástico colorido, talvez uma criança sozinha demais, que descontava sua frustração naquilo que devia lhe alegrar. Possuía tudo, mas não tinha nada. Amor, carinho e atenção não se quebram como o plástico colorido. Memórias são indeléveis formadoras de caráter. Plástico colorido, não.

Revistas antigas em uma caixa, bailarinas e almofadas brancas sobre um sofá manchado. Menina estudante, filosofia, talvez. Era o quarto mais iluminado daquela casa. Será que o estudo realmente trouxe luz e entendimento? Talvez a leitura fosse mais fácil, ali.

Em uma das paredes, “A Persistência da Memória”, quadro de Salvador Dali.

Relógios. Treze deles espalhados pela casa. Vigiando as almas daqueles que passavam em sua frente. “Ainda não”, diria.“Ainda resta tempo. Muito. Abram as janelas, peguem as crianças e vão ver o sol.” Cada minuto dentro daquela casa estava contado, reservado. Todos os minutos estão, Em todas as casas. Não se pode atrasar ou deter os ponteiros que rodeiam nossa existência.

Ao pé da cama, um par de sapatos pretos, pareciam aguardar alguém. Ninguém no banheiro, ninguém em outro quarto. Permaneciam aguardando. Aquele par de sapatos não sabe o que é um relógio, não sabe contar as horas, não sabe ler nem ver o sol. Mas sabe que só existe, de fato, quando veste alguém. Decidido, trilha caminhos inglórios, salva pessoas, caminha imponente pelas avenidas. Carrega seu dono em qualquer viagem, sem causar desconforto. Tudo sem ser notado. Aquele par de sapatos, sem vida, sem causa ou efeito, aguardava.

O  pé que ele vestia não o levou para sua última viagem.
Que caminhos fantásticos terá perdido.

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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