11

Quem sou eu perto de tantos jornalistas especializados e de conhecedores do automobilismo brasileiro e suas histórias para me atrever a escrever sobre esse homem?

Essa pergunta rondou minha cabeça o dia todo, entre telefonemas e conversas com meus amigos próximos, mas não ousei dividí-la com eles.

Uma noite mal dormida, pensando em meu pai, em meu filho, no futuro da família, e tudo aquilo que realmente endurece o travesseiro.

Pela manhã, a notícia do falecimento de Luiz Pereira Bueno me abalou profundamente.

Tenho, hoje, trinta anos de vida, não o vi correr, nunca vi nenhuma de suas façanhas e aventuras em busca do sonho no automobilismo, não acompanhava as revistas semanais à espera de notícias, enfim, não acompanhei sua carreira.

O que escrevo a seguir é muito mais sobre mim do que qualquer outra pessoa.

Em 2008 juntamos amigos e fundamos o Maverick Clube do Brasil, e em uma dessas coisas da vida que não posso explicar, passamos em frente ao autódromo de Interlagos.

Eu nunca havia entrado lá, e entramos sem querer, sem convites ou credenciais, sem saber se havia algo ou alguém lá dentro.

Dez minutos foram suficientes pra sentir o cheiro de combustível e borracha que emanava do Templo. Esse foi o tempo que fiquei por lá, mas ao sair olhei para um grande amigo que estava comigo e disse: “um dia a gente vai entrar aí com os Mavericks do clube”.

Nesse dia acontecia uma das etapas da Históricos V-8 5000, categoria idealizada por amantes dos antigos Mavericks divisão 1 da década de setenta, que barbarizavam o anel externo sempre acima de 250 km/h.

Durante a semana seguinte, um dos pilotos da categoria coincidentemente coloca uma mensagem em um de nossos fóruns, oferecendo credenciais para a próxima etapa.

Na mesma hora começamos a organizar a lista com a quantidade de participantes, familiares, carros, tudo organizado com nomes, telefones, RG e tal.

Decidimos que seria feito um encontro do Maverick Clube do Brasil no autódromo, e que se dependesse de mim, aquilo podia se tornar nosso ponto de encontro mensal, sempre acompanhando as etapas da Históricos.

Dito e feito, conseguimos levar para o autódromo cerca de 30 Mavericks, coisa rara de se ver mesmo nos grandes encontros de carros antigos pelo país.

Dois carros chamavam atenção nos boxes.

O Mercantil-Finasa da equipe Greco e o Berta Júnior da Equipe Hollywood estavam lá, réplicas perfeitas de um passado glorioso do automobilismo brasileiro, daquelas coisas que eu só conhecia por fotos e relatos, por revistas velhas compradas no sebo e por um ou outro site que dedicava algumas linhas à isso.

O chefe da equipe?
Luiz Pereira Bueno.

Sempre quieto no seu canto, gentil e receptivo, vistoriava os carros e desempenhava seu papel de conselheiro e mestre dos pilotos que alí estavam.

Uma pausa para o cigarro, o meu e o dele, juntos sem querer.

“Seu Luiz, quando o senhor vai acelerar um maveco na pista de novo? Tá tudo aí, é só entrar e meter bronca.”

Ao que me respondeu com a humildade e o sorriso de quem conhece a fundo as razões daqueles que o fazem aparentemente sem nenhuma:

“Ah, mais pra frente. Preciso treinar.”

Nesse mesmo dia fui convidado a colocar meu Maverick na pista, como carro madrinha da categoria, logo em nosso primeiro encontro no autódromo, essa oportunidade caiu no meu colo.
Outro grande amigo dividiu essa honra comigo e lá fomos nós.

Eu tremia muito.
Não tinhamos tempo pra andar devagar ou errar, para não atrapalhar a largada que se daria em 3 minutos.
Muita novidade pra minha cabeça, que tentava controlar o corpo e o carro.

Conseguimos.
Fizemos a volta e rumamos para os boxes.

Só após assistir o vídeo acima, confesso, que eu percebi, ou fui alertado pelo amigo que estava no carro comigo, que fomos recebidos por Luiz Pereira Bueno, que nos aplaudiu.

Quem sou eu pra receber tamanha honraria?
Na casa dele, com o carro dele, fazendo o que ele faz melhor do que muitos, senão todos?

E eu não percebi, até a manhã de hoje.

Tudo aquilo que fazemos e achamos importante, pode realmente não ser nada se perdemos o foco do principal.
Que essa vida passa mais rápido do que o reflexo de qualquer piloto em perceber e corrigir suas traseiradas.

Essa vida, grande prêmio sem pódium, sem louros, só é encarada com a ajuda de uma equipe forte, leal e inteligente, que sabe a hora de acelerar ou de tirar o pé para que o motor não estoure.

Como disse no início que escreveria sobre mim, chego ao final sabendo que consegui.

Por mais que eu queira, não sou nada sozinho, e a vida dessas pessoas completa a minha própria história, tropeçando em memórias coletivas e impressões pessoais e intransferíveis.

Se eu sou, é porque tu és.

 

 

Anúncios

Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
Esse post foi publicado em Automobilismo e marcado , , . Guardar link permanente.

9 respostas para 11

  1. ingrydlamas disse:

    Puta que pariu.
    Pq esse texto? Tô chorando baldes aqui.
    Acho que tô chorando muito ultimamente.
    Mas esse texto…
    Não vou te dar parabéns, odeio dar parabéns por textos espetaculares. Não acho que é caso de parabéns.
    Vou agradecer.
    Obrigada.

  2. @MarceloSCamara disse:

    Sensacional, Lombardi.

  3. Entendo a Ingrid, mas eu darei sim os parabéns. 1000 x Parabéns!

  4. jonesbegol disse:

    Bacana seu texto. Emotivo. Abraços!

  5. Erik disse:

    Parabens pelo lindo texto, uma ótima homenagem a mais um ídolo que se vai. Se me permite, gostaria de transcrever abaixo o igualmente belo texto do Jan Balder, um piloto contemporâneo de Luizinho e a quem também admiro, na revista “Brasileiros”, em 2009, que resume bem a vida e a carreira do “Peroba”:

    “”Um piloto completo
    Luiz Pereira Bueno começou cedo na carreira e em pouco tempo tornou-se um dos pilotos mais importantes das pistas brasileiras e internacionais

    Jan Balder

    Desde muito cedo a vida do paulistano Luiz Pereira Bueno, nascido no bairro de Higienópolis em 1937, foi influenciada pelo automobilismo. Em um bucólico passeio de domingo, ele foi levado pelos pais para assistir a uma corrida no Autódromo de Interlagos, época em que os carros eram movidos a gasogênio. Ele tinha sete anos. O entusiasmo com os carros tiraram-lhe a atenção para os estudos, e aos 11 anos foi reprovado na escola. Como “castigo”, foi estudar em um colégio interno em Campinas, onde ficou por dois anos. Mas dava suas escapadas nos finais de semana para ir a Interlagos assistir aos treinos do então futuro cunhado Cláudio Daniel Rodrigues. Luiz terminou o ginásio em São Paulo, na mesma época em que seu irmão Vasco estreava nas pistas e que Cláudio abriu uma oficina mecânica. O futuro piloto passou a dividir o seu tempo entre os estudos e a oficina do cunhado, onde aprendeu tudo sobre preparação, o desenvolvimento e o esquema para amaciamento de motores – o que lhe seria útil em sua carreira. Após as aulas, ia para Interlagos e lá ficava a tarde toda dando voltas e assentando o motor dos carros da oficina de Cláudio. Algum tempo depois, Vasco comprou um Fiat Stanguelini da Equipe Comino, que era pilotado por Ciro Cayres, e este virou o carro de corrida dos irmãos Bueno. Em 1956, aos 19 anos, o jovem Luiz Pereira Bueno iniciou sua carreira automobilística quando, com o pequeno Fiat de motor de 1,1 litro, estreou em Interlagos. Naquele período de aprendizagem, Luiz lembra que nos finais de tarde a oficina virava um ponto de encontro de pilotos e aficcionados. Ali conheceu Bird Clemente, que, junto com Luiz, correria com um Simca Huit – com motor e câmbio do Fiat – nas III Mil Milhas Brasileiras de 1958. Infelizmente, o carro quebrou logo no início da prova.

    Disposto a desvendar os segredos dos automóveis, aos 22 anos, Luiz conseguiu uma vaga na fábrica de automóveis Willys para trabalhar na unidade de eixos e transmissões. Logo depois fez um estágio de especialização nos carros da linha Jipe, Rural Willys e também no Renault Dauphine, que passara a ser fabricado pela Willys. Foram dois anos afastado das corridas. Sua volta às pistas deu-se em 1961, quando fez dupla com Danilo de Lemos em um Dauphine na prova 24 Horas de Interlagos. Ali conheceram Mauro Salles, que os apresentou à diretoria da Willys. Com esse novo contato, acabaram conhecendo um projeto sigiloso, o Willys Interlagos. Bueno foi, então, convidado para um estágio na fábrica do Alpine na França, mas, quando retornou ao Brasil, percebeu que não seria possível conciliar o lado esportivo com o profissional. Desligou-se da fábrica e optou por ser “apenas” piloto de competição. Com o amigo de infância, Franklin Martins, abriu em 1962 a oficina Torke, onde preparava carros Renault.

    Em 1963, em dupla com seu amigo Francisco Lameirão, estreia na equipe oficial da Willys com um Gordini. Os Willys Interlagos, principais carros da equipe, enfrentam problemas, enquanto Luiz e Chico fazem excelente prova, a ponto de o chefão Christian Heins compor trinca com eles no final da prova. Terminam como melhor carro da equipe, em 3º lugar. Foi a última corrida de Christian Heins antes do seu acidente fatal em Le Mans. Sob o comando de Luís Greco, Bueno era considerado um piloto prata da casa, pois na Willys consagrou-se com Dauphine, Gordini, Carretera Gordini, Willys Interlagos, Alpine e protótipo Bino. Nas décadas de 1960 e 1970, foi o piloto com o maior numero de vitórias entre todos os colegas brasileiros. Mais tarde, a Willys foi adquirida pela Ford, que rebatizou o Alpine, de Mark1, e o Bino, de Ford Mark 2.

    No início de 1969, Bueno e Ricardo Achcar vão à Inglaterra correr de Fórmula Ford pela equipe SMART (Stirling Moss Racing Team). Luiz venceu seis corridas em menos de oito meses e terminou como vice-campeão inglês de Fórmula Ford. De volta ao Brasil participou do Torneio BUA de F-Ford, com cinco provas em quatro autódromos, com um carro Merlyn nas quatro primeiras provas e com uma Lola T-200 na última, em Interlagos. Quando Luís Greco adquire a revenda Samdaco, Bueno passa novamente a integrar sua equipe. O binômio Greco e Bueno contabilizou o impressionante numero de 27 vitórias em pouco mais de 60 provas. No final de 1970, na Copa Brasil Internacional, chamou atenção um Porsche 908 do príncipe Jorge de Bragation, que só não venceu porque Emerson Fittipaldi, com um pequeno Lola T210, não deixou. Luiz lembra que estava ao lado do Anisio Campos, Paulo Goulart da Dacon (representante Porsche) e José Carlos Pace quando pensaram em montar uma equipe profissional. “A duras penas compramos um Porsche igual aquele do príncipe que o Anisio Campos foi buscar na Alemanha. O Paulo Goulart ajudou na importação e montamos a Equipe Z. O Pace estava em dificuldades de obter apoio para a Fórmula 2 na Europa, mas acabou acertando com ajuda dos irmãos Diniz. Após três etapas, estreando com vitória, foram para Argentina enfrentar o bicho-papão de lá, o Tornado Berta, de Luis Di Palma. Foi um belo duelo, e Di Palma levou a melhor. Luiz Bueno deu o troco logo depois, já como equipe Hollywood, em San Juan, numa ultrapassagem espetacular na entrada de S de baixa velocidade.

    A equipe conseguiu o patrocínio da Souza Cruz, que passou a divulgar o cigarro Hollywood, e, mais tarde, o da Shell. O Porsche 908/2 com Luizinho no cockpit não tinha adversários – venceu 10 provas e, em uma corrida memorável, terminou em 2º lugar. No início de 1971 Luiz Bueno participou da temporada brasileira de F3, terminando uma etapa em 2º lugar, e no final do mesmo ano, na temporada de Fórmula 2, em 5º lugar em Córdoba, na Argentina.

    Na realização da primeira prova experimental de Fórmula 1 no Brasil, em 30 de março de 1972, a Hollywood alugou um carro March 711 para Luiz Bueno, que acabou a corrida em sexto lugar. Em novembro de 1972, aconteceu a última corrida dos carros importados no Brasil, quando Bueno se torna campeão da categoria Esporte-Protótipo com o 908/2. A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) decidiu que a partir de 1973 seriam admitidos somente protótipos nacionais. Chassis importados só poderiam correr se fossem equipados com motor de fabricação nacional. Bueno e Anísio venderam o Porsche.

    No primeiro GP de F-1 de 1973, a equipe novamente alugou um carro para Bueno, dessa vez um Surtees TS9B. Durante os treinos, Bueno parou e reclamou que o carro não estava bom. John Surtees, dono da equipe, duvidou. Quando o piloto oficial, José Carlos Pace, testou o carro e concordou com Bueno, Surtees pediu-lhe desculpas. Constatou-se que, durante a montagem, os mecânicos inverteram um dos triângulos dianteiros do carro. Na corrida, houve uma pane elétrica e Bueno chegou em décimo lugar. A partir daí, Bueno passa a correr com um Opala 4.100 da Divisão 3. Logo depois, Renato ‘Tite’ Catapani e Bueno resolvem entrar na Divisão 3 com o Maverick desenvolvido pelo argentino Oreste Berta e, em 1975, vencem duas etapas do Campeonato Brasileiro.

    Paralelamente, Bueno também participa com o Berta Maverick na categoria protótipos Divisão 4 com um chassis argentino e motor brasileiro – foi a sensação da temporada vencendo quatro etapas e consagrando-se campeão brasileiro. No final daquele ano, a Souza Cruz anuncia o fim do patrocínio à equipe Hollywood. Bueno ficou fora das pistas algum tempo, período em que trabalhou na Bantec, convidado pelo seu fiel amigo Franklin Martins. Em 1982, aos 45 anos, retorna às competições para correr de Stock Car, quando obteve resultados medianos. Em 1984, convidado pelo amigo Lian Duarte e pela Equipe Greco, Luiz Pereira Bueno fez sua prova de despedida: os Mil Quilômetros de Brasília a bordo de um Ford Escort. Ficou em oitavo lugar. E para sempre na memória de seus fãs.””

    Espero que lá de cima ele siga olhando por todos os que continuam por aqui.
    abs
    Erik

  6. cariocadorio disse:

    Valeu a pena dar uma olhada nos tags sobre o Luizinho. Texto emocionante sobre ele, o próprio titular deste espaço e a vida de quem não exita em senti-la.
    Saudações cariocas

  7. evandro disse:

    Caros amigos, trabalhei de 1966 a 1970 na Bino Samdaco, da consolação, infelizmente perdi minha carteira de trabalho, agora quero me aposentar, e não consigo comprovar esse período trabalhado.
    Pergunto: vocês não teriam dados sobre a empresa, pessoas físicas responsáveis (ex donos), endereço atual, ficha de funcionários, etc… para que eu possa estabelecer contato.
    grato
    Evandro Rui Nogueira de Souza
    email: laolivi@terra.com.br

    • lombardi13 disse:

      Olá, amigo.
      Eu não possuo tais registros,
      mas acho que dirigindo-se até a junta comercial da cidade
      eles possam te informar direitinho.
      Boa sorte na empreitada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s