Entre duas torres.

Apesar das coincidências e teorias, acho que o que aconteceu há dez anos foi mais uma das fatalidades dessa vida moderna.

Não eximo nenhum dos lados da culpa que carregam através dos anos, por suas ações e pensamentos igualmente extremistas. O capitalismo que renega seres humanos a fome e a pobreza, e o extremismo que prega a violência como forma política. “Soluções políticas não funcionam”, já dizia Woody Allen em O Dorminhoco. Logo mais estaremos realmente roubando o nariz de Erno.

Acontece que, no amor e na guerra, tudo pode. Assim o ser humano pensa e não vai mudar tão cedo.
É conveniente.
Estamos morrendo cada vez mais sem um ideal, sem uma boa e definitiva razão. O egoísmo que te faz lutar para sobreviver, também atrapalha o desenvolvimento de um juízo de valores equilibrado.

Em 2001, como agora em 2011, eu estava desempregado, acabando de ligar a televisão e vejo a notícia. “World Trade Center”. Baita susto, a primeira coisa que pensei foi em uma ex-namorada, que trabalhava no WTC, mas não o de Nova Iorque, e sim aquele da Marginal Pinheiros,em São Paulo.

Temos a tendência de exagerar na reação quando temos um mínimo de informação disponível. Já com alguns dos números discados, a televisão esclarece a localização geográfica do acontecimento que até então era tratado como acidente, um avião teria se chocado com uma das torres. Nem terminei de ligar. Pensei: “Não me afeta diretamente”.

Somos todos fanáticos, em um ponto ou outro da vida. Proteger aqueles que amamos em momentos difíceis nos levaria a feitos heróicos e descabidos, talvez até recrimináveis. Como pensar em salvar sua ex-namorada em um momento de reviravolta do cenário mundial. O mundo vai mudar, pode até terminar, mas primeiro eu vou lá defender o que me é pertinente. E assim segue o jogo, olhamos o umbigo e nele vemos o universo.

Vamos ver o que realmente acontece, agora com a serenidade da distância.

O segundo avião atinge a outra torre, e o jornalista (Carlos Nascimento, acho) que apresentava as imagens não viu. Continuava falando em possível acidente, fumaça e fogo, e eu gritando com ele, apontando o ocorrido: “Foi um avião! Olha lá, cara!”.

Os acontecimentos iam se desenrolando e chegam notícias de que um outro avião teria se chocado contra o Pentágono. Agora, fodeu. O próximo alvo é a Casa Branca. Aí, sim, fodeu tudo. Mesmo que não pegue o presidente, acho que pior que isso não teria. Estátua da Liberdade, talvez? E se a Diney estivesse em perigo? O símbolo universal do capitalismo americano, Mickey Mouse, estivesse com suas horas contadas? Não havia mais alvos significantes.

Outro avião, certamente o que iria para a Casa Branca, caiu antes de completar sua missão. Ou foi derrubado, vai saber. Não há lógica alguma em uma tentativa rápida de solucionar um perigo iminente. A reação mais instintiva do ser humano é atacar. Mesmo o covarde se enche de forças para correr, e se usasse a mesma para o ataque, certamente surpreenderia o adversário.

Passageiros, que os relatos informaram dias depois, nunca correram, mas sim usaram suas forças para retomar o controle do avião. É mais bonito formar heróis do que exaltar um piloto de caça que abateu um avião sequestrado cheio de compatriotas, mesmo seguindo ordens superiores e protegendo seu presidente e sua nação.

Desfecho trágico, televisionado em tempo real graças à mente brilhante dos seres humanos que desenvolveram suas comunicações via satélite. Mentes brilhantes, mas de pensamentos opacos.

Caíram as torres. O sentimento que vem logo em seguida é o da retaliação americana, como em Pearl Harbor. Eventualmente aconteceu, mas no país errado e por razões políticas mesquinhas. A vingança do cowboy bobão, terminando o serviço que o papai deixou pra trás. Guerra de novo. Ponto pro Capeta.

Seguem os dias e a corrente de informações revela um plano audacioso executado por terroristas, usufruindo de tudo aquilo que dizem combater, como a liberdade de ir onde quiser, fazer aulas de pilotagem sem ter que dar maiores explicações, comprar armas e embarcar com artefatos perigosos em um avião bem na cara do Tio Sam.

Tio Sam armou e treinou os extremistas. Tudo pela nação, frente à ameaça vermelha. Mas não perceberam que o fanático não tem bandeira. Usa o universal branco da paz e da pureza para atingir seus objetivos, sejam eles quais forem.

Fanáticos de qualquer laia, capitalistas ou religiosos, não enxergam detalhes, e pessoas são apenas detalhes quando querem atingir e machucar seus inimigos, baseados em sua fé.

Fé que tem dois lados, vencedores e derrotados, mas no final, todos se igualam perante a morte. Como naquele jogo de xadrez cinematográfico, quem tem um ideal persevera, ganha alguns dias a mais no confronto.

Só que o check-mate é sempre da Rainha negra.

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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