O Rádio e eu.

Sou da geração televisão, via de tudo, gostava de tudo, mas o rádio sempre esteve ao meu lado.

Quando criança eu ouvia Gil Gomes no Nissei All Silicon Transistor AM e ondas curtas do Fusca da minha tia, só com um alto-falante mono.
Escondido de minha mãe, claro.

Mas era no Fusca 1300 L ano 76 que eu ouvia sobre os crimes bárbaros e aterrorizantes da cidade, ilustrados por edições diárias do Notícias Populares que ficavam no banco traseiro.
Aprendi a ler com três anos, e cada notícia escabrosa daquelas era uma viagem de aventura na cabeça.

Como aquela foto na capa que mostrava dois homens sob o título “CONTRABANDISTAS”. Eles pareciam muito com os caras que cuidavam do estacionamento onde ficava o Fusquinha e desde então nunca mais deixei minha tia guardar o carro sozinha. Virei herói.

Na casa de minha avó a Rádio Globo estava sempre no ar. Aquele som característico do radinho de pilha, o eco e a variação de volume e o vai e vem das ondas sonoras se misturavam ao cheiro de limpeza da cozinha, o barulho da torneira do tanque e o cheiro de verniz e madeira que meu avô fazia suas artes quase diariamente.

Logo veio o toca-fitas de gaveta com Tojo nas Caravans de meu pai, e a lembrança daquele trambolho em todas as mesas de restaurante e quartos de hotel por onde passávamos. Só o Tojo ficava no carro, não era de gaveta, mas era meu preferido. Cada mexidinha nos botões criava um universo de sons perfeitamente equalizados e audíveis, como deveriam ser.

O gavetão cabia todo na bolsa do pai, uma daquelas de couro usadas por malandros dos anos setenta, onde tinha de tudo, cachimbo, fumo, revólver e claro a carteira, quase tão grande quanto a bolsa toda.
O revólver era secreto, e eu juro que não sabia dele nem nunca mexi nele nem escondia as balas na meia pra depois colocar no meio das brincadeiras como se fossem ogivas letais contra os soldados do Cobra Inimigo. Juro.
Desses itens, os únicos que vi meu pai usar foram o rádio e a carteira.
Hoje o velho só usa a carteira gigante e vive esquecendo por aí.

No toca-fitas ouvíamos o futebol de domingo, e quantos Motoradios houvesse no estoque, todos seriam de Biro-Biro ao término da partida. Inclusive dizem que ele vendia a moto, mas dava o rádio para a avó dele. Senhorinha de sorte, essa.

Sem falar no famoso Orelhinha, que não pegava nada e ainda tirava sangue da gente na copa de 86.

Anos noventa, não tinha mais Caravan, então veio a Ipanema azul. Sem gaveta e sem Tojo, mas cheia de falantes no tampão e na lateral traseira onde eu sentava. Sempre fiquei à direita pra poder observar meu pai guiando e fugir dos tapas da mãe, que sentava no banco do carona e não me alcançava direito. E lá dentro num passeio tradicional, Sepultura toca no rádio. Pronto, aquilo pra mim era demais. Tinha que tomar uma providência imediata, e já que não podia ter um carro com meu próprio som por só ter 11 anos, reboquei o trambolhão Philips da sala pro meu quarto.

Ninguém ouvia música em casa exceto eu e minha irmã, sempre com disquinhos infantis chatos pra caramba. Eu preferia ler as histórias a ouvir, e o desenho da capa era sempre o mesmo, não tinha graça.

Dali pra frente tudo mudou. Eu pegava os discos que tínhamos em casa, coisas de samba e MPB e ia escutando, só pra testar equalizações diferentes, volumes e caixas de som que encontrava na rua. Lata falante da Skol? Faça-me o favor. Fiz isso na época usando um falante de walkman e um fio de fone de ouvido que passava por dentro da lata.

Agora eu tinha meu próprio mundo, com aquele dial gigante cheio de coisas novas. Desde o Rap nacional na Metropolitana até o Heavy Metal da 97FM, da 89FM e futuramente da Brasil 2000.

Do amigo japonês que tinha um walkman Sony menor do que a fita k-7 ao meu CCE azul com fones laranjas foram incontáveis músicas e rebobinamentos com caneta feitos em sala de aula. Tudo vinha do rádio, de graça, pré redes sociais e programas de compartilhamento de arquivos. Nada de novo no front da modernidade.

Gravava fitas com as músicas preferidas, xingava o locutor que falava por cima e as vinhetas que colocavam no meio.
Não posso garantir, mas acho que as fitas vinham de um lugar distante e desconhecido, fora dos meus limites territoriais, e estranhamente já continham discos inteiros gravados e capinhas feitas com caneta Bic.

Em sua grande maioria continham músicas dos Engenheiros do Hawaii, que eu odiava. Anos depois passaria a gostar da banda, e muito. Até fiz um favor para uma fã e dei a coleção completa em cd pra ela que havia perdido todas as suas fitas misteriosamente.
Um bilhetinho em caneta Bic dizia “Desculpa, mana.”
Sei lá, deve ter vindo por engano da fábrica de cd.

Bom, hoje é quarta-feira, dia de jogo. Não tem mais o Motoradio, o Nissei se perdeu no tempo, o Philips quebrou, o CCE sumiu e meu TKR cara preta foi embora junto do Maverick que vendi recentemente.

Então o jeito é apelar pro Go Gear e ouvir o Milton Neves madrugada adentro.

Capricha, cabeção.

*Fica o agradecimento à todos os profissionais que me acompanharam por toda a vida, mesmo que eles nuca saibam disso pessoalmente.

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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Uma resposta para O Rádio e eu.

  1. Dyonisio disse:

    Muito legal. Parabéns.

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