Microcosmo.

Eu tenho plano de saúde.
Quando precisei, corri ao hospital com a carteirinha e fui bem atendido.
Ainda reclamei da demora que me tomou quarenta minutos naquele hospital limpo e cheio de cadeiras para os que aguardavam.

Minha esposa não tem plano de saúde.
Um daqueles vacilos que a gente dá e só percebe depois que a coisa já desandou. Minha esposa está doente, eu estou desempregado.

Em Novembro de 2010 algumas manchas apareceram em suas pernas, com pequenos nódulos doloridos. Ficavam por cerca de dois meses e desapareciam, deixando pequenas marcas semelhantes a hematomas. Enquanto os nódulos lá estavam, a dor era muito grande nas pernas, quadris e articulações. Limitava movimentos, trazia desconforto.

Sem plano particular, recorremos à rede pública de saúde.

Primeiro dia, fila, uma hora até chegarmos ao guichê de atendimento para marcar a primeira consulta. Com sorte conseguimos, mas a única disponibilidade era para dali a dois meses. Marcamos mesmo assim.

Dores, desconforto.

Dois meses se passaram, os nódulos sumiram. No dia da consulta, a médica examinou e não achou nada, claro, e pediu alguns exames que foram colhidos no dia seguinte. O prazo para a devolução dos resultados foi de trinta dias.

Apreensão.

Trinta dias depois, fomos ao posto buscar os resultados. Seis pedidos no total, apenas quatro resultados. Perderam duas amostras antes de enviarem para o laboratório. Durante todo esse tempo não tivemos nenhum contato do posto de saúde, e ninguém de lá deu falta das amostras. Colhemos o que faltava e aguardamos os novos resultados. Mais trinta dias de espera.

Os nódulos voltaram e as dores também.

Resultados dos exames em mãos, hora de marcar nova consulta. Só para dali a dois meses.
Passa o tempo, passam as dores e as manchas. Nova consulta e a médica não encontra nada. Não sabe mais o que fazer, não pode prescrever nenhum medicamento, já que não sabe qual o problema. Indicou uma clínica de dermatologia, gratuita, chefiada por um curso particular de medicina que usa os pacientes como escola de pós-graduação.

Fomos até a clínica, consulta marcada. Mais trinta dias de espera.

Casa cheia, muitos estudantes de medicina, cinco salas. Dois médicos responsáveis carregavam cerca de quatro ou cinco estudantes de sala em sala para acompanhar as consultas.
Alguns se interessavam, outros ficavam conversando e atrapalhando. Esse processo demorava bastante, já que a “migração” entre as salas era bastante intensa. Resumindo, o tempo passou e tivemos mais uma consulta sem diagnóstico. Mais exames foram pedidos. Resultados e nova consulta em trinta dias.

O cansaço.

A patroa queria desistir de tudo. As dores eram muito fortes quando atacavam e estavam destruindo sua confiança. O pior veio quando foi solicitada uma biópsia de um único nódulo que insistiu em nos ajudar, ficando no lugar depois que todos os outros se mandaram. Uma sorte, eu pensei. Teríamos um diagnóstico, enfim. Com a biópsia seria definitivo, finalmente a gente ia descobrir o que era aquilo. Inclusive que aquilo poderia ser um câncer. Houve casos na família, seria uma coisa natural de acontecer. Tudo muito simples de entender, mas difícil de encarar. Foram dias nervosos e tristes, confesso. Por mais que eu e ela sejamos guerreiros, é duro de aceitar e a cabeça parte para um lado nada legal.

Do pessimismo ao otimismo em uma hora.

Não é câncer, diz a biópsia. Alívio egoísta, eu sei, mas se isso não estava previsto em nossa caminhada, que seja. Um Eritema Nodoso. Sintoma de alguma coisa escondida, que desencadeia essa reação nos membros inferiores. Ainda não é a doença, mas é um caminho, o primeiro em meses infrutíferos.

Fomos orientados a procurar um reumatologista, mas a especialidade é raríssima na rede pública. Fomos obrigados a pagar uma consulta particular. Exames pedidos, decidimos fazê-los em laboratório particular. Não perderam nenhuma amostra e ainda telefonaram quando os resultados saíram, após dois dias.

No retorno ao reumatologista, finalmente um diagnóstico. Uma tuberculose latente, incubada, que nunca se manifestou como tuberculose, mesmo. Apenas houve o contato com a bactéria, que entrou no corpo dela e lá permaneceu por dez anos sem causar nenhum problema. Estimamos os dez anos, pois foi nesse período que as dores e as manchas surgiram, sem a mesma intensidade, tanto que foram ignoradas. Nesse mesmo período minha esposa ainda morava em Santa Catarina, e frequentemente andava de ônibus para vir até São Paulo trabalhar. Não houve comportamento de risco nem outras doenças que possam ter ocasionado o contato com a bactéria, que é transmitida pelo ar em sua forma mais comum.

Tudo muito simples, não? A não ser o fato que a bactéria da tuberculose está por aí há quarenta mil anos, se desenvolvendo e criando barreiras contra as defesas do organismo humano.

A bactéria pode se alojar em qualquer lugar do corpo, sendo o pulmão a morada mais comum. Não é o nosso caso, e até agora não sabemos onde está esta pequena salafrária. De qualquer forma, o tratamento é o mesmo, e como a doença foi considerada “emergência global” pela Organização Mundial de Saúde, em 1993, todos os casos exigem o “Tratamento Diretamente Supervisionado”, onde o paciente precisa, obrigatoriamente, dirigir-se à rede pública de saúde, onde será acompanhado diariamente. Ou seja, todos os dias a pessoa vai até a unidade de saúde e toma o remédio na frente da equipe. Os remédios não saem da unidade de maneira alguma, e os pedidos são feitos no nome do paciente. Cada um tem sua caixinha de remédios trancada em um armário, com a tabela de progresso e acompanhamento.

Mais dois meses de espera pela primeira consulta na rede pública.

Os profissionais que estão atendendo minha esposa são competentes e diligentes, sempre recebendo de forma cordial e respeitosa. Já não é o caso do balcão de informações do mesmo posto, onde os atendentes conversam amenidades o dia todo, enquanto enrolam e riem daqueles que buscam atendimento.

Em um desses dias eu estacionava o carro e minha esposa entrou no posto de saúde. A equipe de acompanhamento não estava na sala designada, então ela entrou na fila do balcão para perguntar se voltariam. Saiu chorando. O atendente riu e disse que não sabia de nada, e que era problema dela saber onde estava a equipe. Voltei com ela até o posto de saúde e a equipe estava na sala designada. Tinham saído para buscar remédios na farmácia e não levaram cinco minutos para voltar. Antes, tinham avisado o atendente e entregado a ele o protocolo.

Claro que o atendente não estava mais lá nesses cinco minutos. Posso afirmar que eu procurei. Eu e o segurança, que, não sei por que, ficou o tempo todo perto de mim. Ele ouviu quando o atendente riu e viu quando minha esposa saiu. Ele viu quando entrei no posto com minha esposa ainda chorando. Minhas expressões denunciam minhas intenções, eu acho.

Hoje, Novembro de 2011, completamos um ano nessa batalha.

A medicação é forte, causa desconforto, alergia e coceiras fortes na pele por todo o corpo. Tudo isso era esperado e é considerado normal durante os seis meses de tratamento. Já completamos dois meses, e na próxima semana a medicação entra em uma nova fase. Não sei se mais forte ou mais amena, mas ainda sim com efeitos colaterais e desconforto para minha esposa. Ainda temos quatro meses de visitas diárias ao posto de saúde do bairro, faça chuva ou faça sol. Tudo isso sem perder o foco, sem esmorecer. Alguns dias são melhores, outros piores. O importante é seguir de cabeça erguida, seguindo à risca as instruções e determinações, tendo em mente que a cura vai chegar em breve. Só depende de nós, e de como lidamos com o processo.

Como na vida, esse pequeno universo microscópico dentro da gente segue seu rumo de acontecimentos, sem se importar muito com a casca convalescente. Se você enfrenta algo similar em sua vida, tenha fé naquilo que te move, seja um deus, uma crença, um desejo ou um sorriso de criança. Cada caminho leva a uma realização.

* Não quero transformar esse relato em algo político, haja vista os últimos acontecimentos. Tem por objetivo informar e tentar ajudar aqueles que passam por problemas especificamente semelhantes.
Para minha família, o serviço público está sendo efetivo.
Tem suas falhas, algumas delas evidentes, como a falta de pessoal, o grande número de pacientes e a falta de treinamento adequado e até mesmo de respeito por parte de alguns profissionais que deveriam zelar pelo bom atendimento.
Mas vale lembrar que é a única opção que temos para o tratamento, que só é realizado na rede pública. Se existisse na rede particular, provavelmente eu optaria por ele. Nem tanto pela competência, mas pela agilidade nas respostas, afinal, em doze meses de correria mais da metade do tempo foi gasto esperando vaga para consultas ou resultados de exames.
É aguardando dentro das unidades que você vê o médico chegar, atender dois ou três pacientes e ir embora, tudo em menos de uma hora. Claro que a fila aumenta, a demora aparece e a insatisfação reina. Claro que são mal remunerados e trabalham em condições adversas. Tudo muito claro, mas ao mesmo tempo muito complicado.

Não há planejamento no trato com a população, entra governo, sai governo, mudam os partidos de situação e de oposição, mas a realidade continua a mesma.

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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Uma resposta para Microcosmo.

  1. Debora Macedo disse:

    Olá Rodrigo!

    Parabéns pela iniciativa, com certeza ajudará muitas pessoas com o mesmo problema.

    Que a queridona Mari, fique super bem.

    bjo. a todos

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