Só o fim.

O Autódromo Internacional Nelson Piquet vai sumir definitivamente. Quem viu Jacarepaguá, viu, quem não teve essa oportunidade, vai ficar sem saber o que era.

Ganância, politicagem, estupidez. Muitos fatores, um só resultado. Acabou. Toda a história se vai junto de suas paredes, suas curvas já mutiladas. Os maiores pilotos, dos maiores campeonatos, passaram por lá, e se divertiram muito. Sorriram, choraram, deram seu sangue sob o sol escaldante, aclamado pela mais diversa platéia.

Um negro de um metro e noventa, uma criança branca com seu pai branco entrando em meio a um bando de turistas japoneses com seus chapéus grandes e máquinas fotográficas penduradas no peito. Fui a Jacarepaguá antes mesmo de ir a Interlagos, paulistano que sou. Do alto de meus nove anos, vi um grande prêmio de F1 que mudou minha vida para sempre. Entre os turistas passamos pelo portão, sem termos ingressos, caminhamos pelo autódromo até nos acomodarmos na arquibancada atrás dos boxes, com vista para Girão, Morette, Lagoa e Box. Piquet, Senna, Mansell, Prost, Moreno, Berger, Patrese, Gugelmin, Cheever. Nomes que nunca mais sairiam da cabeça, apenas se realocariam para fazer caber outros, como Doohan, Mamola, Barros, Rossi, Cadalora, Biaggi.

Tudo isso acabou.

O futuro é nebuloso como as negociatas rasteiras que decidem os destinos alheios. É sujo, desleal e feio. Não quero fazer parte disso. Eu quero o velho e empoeirado de sempre. Preto e branco também são cores, e bastam, pra quem consegue perceber os diversos matizes entre elas. Um pedaço da minha história está sendo demolido.

Vocês, irresponsáveis, culpados, dementes com o poder vulgar, podem destruir e construir o que bem desejarem naquele lugar. Ele agora é morto em sua latitude. Mas há uma coisa, seus inescrupulosos arrogantes, que jamais poderão tirar daqui de dentro.

O que vi e vivi, antes e depois, não lhes pertence.
Jamais pertencerá.

Imagens em baixa definição, fotos amadoras e muitos relatos. É só o que vai sobrar para as futuras gerações que um dia vão se deparar com pilotos especiais e categorias que já não existirão mais. Até lá, talvez, a Fórmula 1 e a MotoGP sejam apenas fragmentos na memória dos mais velhos, que trazem na distância do olhar a saudade dos tempos antigos, cheios de vida.

Sensações guardadas lá no fundo virão à tona em uma conversa qualquer, com meus pares ou meus frutos, que perguntarão incrédulos como funcionava a tal televisão, para que servia esse monstro chamado VHS, e por qual motivo as pessoas se arriscavam correndo em círculos sem chegar a lugar algum, apenas pra ganhar um troféu de custo muito menor do que aquilo que foi investido para alcançá-lo.
Não faz sentido, dirão.

Se sentido fizesse, não seria nada.

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Sobre lombardi13

Sobrevivendo a mim mesmo na Infernal São Paulo.
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